Parkour, filosofia e intervenção urbana

domingo, 25 de maio de 2008




Quando começamos a praticar parkour algumas vezes provocávamos estranhamento nas pessoas. Seguidos por olhares críticos, freqüentemente fomos reconhecidos como vândalos ou como adultos infantilizados brincando de pular muros.Assim, percebemos rapidamente que a prática de atividades não convencionais podem gerar preconceitos tolos por parte das pessoas. Felizmente isso não foi a regra, mas uma constante exceção. Estamos acostumados à intensa privatização do saber, das práticas, do ambiente em que vivemos, etc. Esperamos também uma normatização das coisas em detrimento da criatividade e das desconstruções e redirecionamentos. Quando passamos a freqüentar as praças públicas para treinar, descobrimos o quão mal utilizadas elas são. Muitas vezes, encontramos em dias ensolarados parques e praças vazias, espaços públicos e privados abandonados ou apenas inexplorados. É claro que ambientes privados como shopping centers, academias, clubes, etc, contavam no mesmo período com muitas pessoas. É justamente o abandono ou o desinteresse pelo espaço público, que faz as autoridades políticas e executivas freqüentemente abandonarem esses espaços. O aumento da violência é freqüentemente associado aos motivos da preferência pelos espaços privados e distanciamento do público. É claro que uma praça mal iluminada e vazia é um prato cheio para roubos ou outras violências. Justamente por isso, é que devemos estar do lado de fora de nossas casas, sair da suposta proteção que temos e lutar por um mundo melhor. Um espaço público habitado torna-se mais seguro e cuidado. A apropriação desses espaços é a principal forma de se reivindicar segurança e cuidado desses ambientes.Aprendemos que exercícios devem ser feitos nas academias, amparados por tecnologias cada vez mais novas. Temos a impressão que um aparelho de musculação de última geração é sempre a melhor forma de se conseguir um corpo saudável. Acreditamos que a academia mais cara deve ser a melhor para nós. Será que não vale a pena olhar um pouco para o passado? Também temos a crença de que não. Mas vamos fazer esse exercício agora. Quando crianças, somos capazes de exercer uma criatividade de dar inveja a qualquer adulto. A caixa de fósforos transforma-se em casa, a mesa de jantar num estádio de futebol, seres super-poderosos nos ajudam em nossos objetivos, e assim por diante. Nossa curiosidade nos tira dos caminhos convencionais e queremos subir na mesa para ver o que há sobre ela. Subimos em árvores para colher frutos ou brincar de Tarzan. Assim, de forma espontânea, treinamos nosso corpo e mente para o futuro e temos muito prazer naquele presente. O parkour, certamente pode ser encarado como uma retomada de tudo isso. Ter prazer numa atividade física e recriar o espaço pode ser, para muitos, melhor que repetir a mesma série de exercícios no mesmo lugar. O contato com a natureza, a busca de novos obstáculos, a criação de novas formas de ultrapassá-los e principalmente a mudança de sentido que o parkour dá aos objetos urbanos ensina que podemos recriar sempre, que podemos fazer do mundo aquilo que queremos que ele seja e não aquilo que quiseram por nós. Ao mesmo tempo, devido à variedade infinita desses objetos e as particularidades de um para outro, nosso corpo é trabalhado por completo na prática do parkour. Transformamos assim, a cidade numa grande academia, onde a regra de desenvolvimento é sempre pessoal. Todo o desenvolvimento físico e mental que o parkour proporciona deve ser conquistado individualmente, em sua relação pessoal com seus próprios objetivos, sem a fantasia de que qualquer progresso depende de fatores externos, tomando consciência que os objetivos e desafios a serem superados dependem de nós.Apesar de nosso grupo até o momento praticar parkour de acordo com a proposta de David Belle, fazemos isso por escolha, assim, somos contra qualquer normatização ou tentativa de aprisionamento do parkour. Acreditamos que o parkour vai além de ir de um ponto a outro do ambiente superando todos os obstáculos, pois vemos o parkour como uma porta para a reocupação do espaço público e privado. Por isso, todas as manifestações artísticas, esportivas, arquitetônicas, de entretenimento, etc, que propõem mudanças positivas nos interessam. Da mesma forma, acreditamos que o parkour pode ser um incentivo para grupos de dança, teatro, praticantes dos mais variados esportes e outros para que ocupem as ruas e transformem escadarias em arquibancadas para espetáculos, mesas de pique nique em mesas de ping-pong, terrenos abandonados em pistas de esportes, viadutos em palco de teatro e tudo mais que possa nos fazer bem.Recentemente estávamos em um parque da cidade de São Paulo quando um menino de cerca de seis anos solta a mão de sua mãe, sai da trilha que seguiam e corre para uma área pequena de mata fechada. Sua mãe grita em tom desesperado para que ele volte dizendo que seria atacado por aranhas. O menino volta decepcionado, e continua cabisbaixo pela trilha construída. Esta cena nos fez pensar. Desde pequenos aprendemos que as únicas trilhas corretas a serem seguidas são aquelas já prontas, algo como andar na linha, pois desviar dela seria perigoso. Esse menino perdeu a chance de se aventurar, de trilhar seu próprio caminho e ser criativo. A trilha só permitia contemplar a natureza, enquanto o que realmente desejava era interagir com ela.Um praticante de parkour faz da transgressão uma criação. Não teme entrar na mata fechada, prefere conhecê-la antes de recusá-la. Diante de obstáculos difíceis aprende a se aproximar com cautela, mas sem temê-los. Diante de obstáculos intransponíveis aprende a reconhecer e respeitar os limites. Preferimos cair e levantar, pois acreditamos que a vida é assim.

FONTE: www.leparkourbrasil.blogspot.com

0 comentários: